Segundo John Money por volta dos 3 ou 4 anos a criança cria uma identificação sexual ao observar o pai ou a mãe no tom de voz, no caminhar, no que representam dentro da famÃlia.
Ao buscar a individualidade em relação a mãe o menino procura identificar-se com o pai, mas como este é geralmente ausente a TV e os heróis preenchem esse papel de forma errônea. Passa a procurar sua identificação em tudo o que for diferente da mãe, menosprezando sua condição, fato esse confirmado pela própria ao dizer que o menino é o “dono da casa” ou o “homem da casa” na ausência do pai.
Já com a menina não é necessário tal separação, o que a leva a se identificar com uma mãe sem opinião própria e preocupada com o bem estar dos outros. Ao se identificar com o pai poderá desenvolver o lesbianismo, e com a mãe a abalar sua auto-estima. Por não ter uma auto-imagem própria a mulher tem a necessidade de agradar e satisfazer as necessidades dos outros, gerando dessa forma angústia e depressão.
“Estou cansada de não ser espontânea e nunca fazer o que tenho vontade. Estou cansada de fingir que não como mais do que um passarinho e andar quando tenho vontade de correr, e dizer que sinto que vou desmaiar depois de uma valsa, quando eu poderia dançar por dias sem me cansar. Estou cansada de dizer “como você é maravilhoso” para enganar homens que não têm metade do bom senso que eu tenho, e cansada de fingir que não sei nada, para que os homens possam me dizer coisas e se sentirem importantes enquanto o fazem”.
(Fala de Scarlet O’Hara no filme “O Vento Levou”, Margaret Mitchell. Gone with the wind. N.Y.: Macmillan Co., 1945, p. 79)
As mulheres são estimuladas a aprender tarefas domésticas enquanto os meninos brincam na rua. Para sair devem fazê-lo acompanhada do pai ou irmão, assim assimilam que sua segurança depende de um homem, o que culmina no casamento onde sua vida passa ser a do marido. A mulher se anula em diferentes nÃveis independente da classe social.
Essas mulheres são o que Marta Suplicy chamou em sua obra de “Mariazinhas”, e suas principais caracterÃsticas são inibição sexual, falta de iniciativa e criatividade, medo de envelhecer, desejo de agradar com boa comida e tarefas domésticas.
A sexualidade das “Mariazinhas” é toda baseada nos preconceitos e nos tabus, dessa forma surge a imagem da mulher passiva e submissa. Sem informação a respeito de si mesmas e do próprio corpo, as mulheres incorporam valores transmitidos pela sociedade, iniciados no próprio seio familiar.
Segundo pesquisa feita por Suplicy, a maioria das mulheres brasileiras consideram como “elogio” formas não adequadas de expressar o instinto sexual do homem. É como se esse extravasamento, ou sÃndrome de Don Juan, fosse aceito como um comportamento natural do homem brasileiro.
Por outro lado, a gravidez fora do casamento é vista como um castigo pela livre sexualidade, direito apenas masculino. A sexualidade e a excitabilidade são vistos como sujos, a mulher deve ter um comportamento digno de uma freira ou religiosa, antes do casamento, e de uma prostituta após. Como o extravasamento da sexualidade é uma questão masculina, o marido se não estiver satisfeito em casa procurará concubinas, o que causa a insegurança feminina.
Sempre posicionadas de forma a agradar o homem, as mulheres necessitam dar filhos ao marido, pois a paternidade está relacionada com a virilidade, da mesma forma com a feminilidade. Entretanto, devem se manter belas e atraentes, de forma a prender a atenção do marido em um mundo povoado pelo apelo sexual e o fácil acesso ao nu feminino nos meios de comunicação.
Educadas sob essa ótica, as mulheres criam dois estereótipos - um da mulher servil, atraente, boa mãe e dona de casa - e outro oposto que deve ser o da feminista.
SUPLICY, Marta. de Mariazinha a Maria. Petrópolis: Vozes, 1985.